segunda-feira, 9 de abril de 2018

Sobre Ideologias e Perigos

Na aulas de Hermenêutica, procuro sempre deixar claro que um texto não existe por si só e, jamais, o que está escrito possui apenas um viês interpretativo. E que as interpretações podem ser várias e, nem por isso, certas ou erradas. Há certas e erradas, mesmo sendo plurais. Definir o que é certo ou errado não está limitado a concórdias. Mas, independente de qualquer coisa, demonstro que existem três intenções do escritor ao leitor:

1 A intenção do autor;
2 A intenção do texto;
3 A intenção do leitor.

Esses três demonstram a pluralidade de posições diante de um texto. Um exemplo disso foi e é tema de debate por conta da condenação de Lula. Diz a Constitução Brasileira:

Art 5: Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

LVII - ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória;

Qual foi a intenção do constituinte? Ele é a favor da prisão antes da sentença penal condenatória em trânsito julgado? Para respondermos isso, dependeremos do que o ele pensa poder fazer com uma pessoa "não culpada". Posso ou não prender uma pessoa, ainda, não considerada culpada (pois para ser, precisa ser condenada em trânsito julgado)?

O "autor" não deixou claro seu entendimento quanto a isso. Ou, estava claro no início, mas, com o tempo, essa clareza se perde. Então, o texto "resolveu" não dizer exatamente o que o autor quis falar.  Com essa vida que o texto ganha, as intenções dos leitores gerarão conflitos:

Os leitores possuem diversas intenções e suas intenções fazem com que interpretem dessa ou daquela maneira. E isso é totalmente legítimo. Essas intenções podem ser boas ou más, ou, se existir, até indiferentes. O debate estará na mesa!

Mas esse texto não se trata de Lula. Apenas usei o exemplo por ser bem palpável para os nossos dias.

Eu costumo ler alguns jornais. Não citarei os nomes pois minha intenção não é falar sobre o quão confiável é esse ou aquele. Porque se existe algo real é que a realidade é interpretada  - e isto já é uma interpretação. Não há jornais ou revistas que dizem o que realmente aconteceu ou que realmente é verdadeiro. Como se diz, "Todo ponto de vista é a vista de um ponto". Daí que não existem imparcialidades. Por mais que alguém sinta e se diga imparcial, tal posição revela, na verdade, um desconhecimento de toda influência familiar, escolar, social e em todos os meios que esse alguém passou e passa. Como já dizia Gonzaguinha, "Toda pessoa sempre é as marcas das lições diárias de outras tantas pessoas".

Ninguém é só o suficiente para ser imparcial. Valores aprendidos e assimilados contribuem com nossa real posição. Isto é comum com todos e, seguramente, não é diferente com jornalistas, que interpretam o "presente", ou historiadores, que nos interpretam o passado. Há manipulação? Tenho certeza que isso existe e sabemos que existe. Mas há, também, crença, valores e, com isto, interpretações. Tudo que é dito é interpretado por quem diz.

Ler jornais, revistas e etc, fazem parte do interesse e da vontade de se estar bem informado. Mas é preciso saber que TODA notícia foi escrita por um ser humano que possui crises, dilemas, valores e tudo o mais que "guiarão" sua interpretação e sua escrita. Acusar este ou aquele jornal de ideológico é, na verdade, não acusar. Porque não existe alguém sem ideologia. O clamor de Cazuza, quando diz "Ideologia, eu quero uma pra viver", apenas revela o desapontamento com as ideologias que conheceu. A ausência de ideologia é uma ideologia. Porque é um protesto contra todas as que conhece e, com isto, se criando uma nova.

Não se pode acusar um professor, um jornal, um jornalista, um historiador, político ou qualquer outro ser humano de ideológico. Porque isto não é uma acusação e não é algo ruim. Ideologia é uma característica de um ser social. O ser humano é social e, portanto, ideológico. É preciso, por conta disso, compreender que a quantidade de ideologias que existem, quer as consideradas "nocivas" ou "benéficas", existem pela incapacidade de uma só abraçar toda a humanidade. Criam-se outras porque as que existem não são suficientes para conter toda a capacidade criativa e imaginativa do ser humano. Por isso mesmo, toda ideologia é cultural. Ainda que limitada a pequeno grupo dentro de um grupo maior.

Olhar a outro como um adversário ou inimigo porque sua ideologia fere seus valores, é, ao mesmo tempo, ter que entender se um outro ser humano te olhar da mesma forma. A diversidade é boa se aprendermos o valor da coexistência. Divididos, certamente, abrimos caminho para que extremos apareçam e acabemos por sermos colaboradores na derramada de sangue. Quando toleramos que alguém diga que o outro, por mais diferente que seja, merece ser morto, torturado ou coisa parecida, abrimos caminho para uma ideologia que nossas leis não admitem. E, como eu disse, ela vai nascer! Porque criamos o espaço propício a isso. E alguma pessoa encontrará necessidade para pegar em armas ou causar danos maiores. Creia-me. Tudo pode, sim, começar com um bloqueio de Facebook; como uma rejeição de ouvir ao outro; de uma incapacidade de compreender que o que você acredita não é o certo, é apenas um ponto de vista sobre um ponto; do desejo de censura que o outro lhe causa; Alguém, um dia, entenderá que isso não foi suficiente para calar a ideologia considerada adversária.

Enfim, o que se quis dizer é que não há realidade. Não se prenda a achar que você tem uma noção melhor da realidade. Não se fie no fato de que quem discorda de você é alienado. Não entre na ideia de que o outro possui cérebro pequeno. A diversidade ideológica permitiu que a sua surgisse. Os dados que você lê fortalecem sua ideologia porque é o que você acredita. Ideologia, não importa se religiosa, é fé. É confiança em algo que tem razão para você e para o grupo que se identifica com você. E, creia, vocês podem, amanhã, se considerarem enganados. Essa mente aberta o suficiente para a troca de opinião ou de viés ideológico permite uma amadurecimento e uma compreensão maior do que é a empatia, tão falada e tão pouco vivida.

Leia os jornais que quiser. As revistas que preferir. Os intelectuais que se identificar. Mas tenha sempre em mente que sua ideologia é um espaço cercado por um muro. Uma prisão, por assim dizer. Há um mundo muito maior por trás dos muros.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Democracia?

 Quem sabe observar não entende a condenação de Lula como inesperada. Da mesma forma, não achou que o impedimento de Dilma fosse evitável. A observação implica em "sair" do cenário. Tornar-se atento não a um fato, mas ao todo. Isso implica em se observar também. Notar se suas emoções, sentimentos e conceitos estão atrapalhando a conclusão.

A melhor forma, para isso  (já que psicologicamente é impossível sair de si), é ler, ouvir e entender quem discorda de suas posições. É por isso que sou contra gritos de "fascista", "não passarão", "bandido bom é bandido morto" e coisas parecidas. Esses refrões tendem a se tornar mera repetição de uma ideia difundida mas não raciocinada. Eu prefiro que as pessoas falem. A "velha opinião formada sobre tudo" atrapalha perceber-se ultrapassado, errado e até injusto.

Dessa forma, li juristas a favor e contra Lula e Dilma. Não sou economista, não sou cientista político e tão pouco sou ligado a esse ou àquele partido. É por isso que dependo da observação. Sem ela, reproduzo. Torno-me um megafone que amplia a voz dos outros, sem contudo ter voz própria. A não ser aquela que executa um ruído irritante, para chamar a atenção do que o outro quer falar por meio de mim. A observação não garante que se está certo. Porém, permite que se esteja mais seguro de suas convicções ou se abra mão delas. É a melhor forma de não ficar parado no tempo e de aprender constantemente. Mais do que preocupado em acertar, preocupa-se em aprender sobre o outro e sobre si mesmo.

Convenhamos, Dilma fez um governo muito ruim. Mas seu governo ruim está intimamente ligado às alianças que o PT, por amor ao poder, à corrupção e ao que mais não se sabe, fez. Ingenuidade daqueles que pensam que corrupção é uma criação de um partido. E ingênuo é, também, quem não percebe que a "perseguição" ao PT existe porque ele deu todos os motivos para isso. Revelou-se hipócrita. Mudou suas práticas sem mudar seu discurso: tornou-se um engano. Da mesma forma, é inocência julgar que o impedimento de Dilma foi movido por luta contra a corrupção. Quem lutou contra ela? PMDB? Que sempre esteve no poder e se tornou o partido profissional em transformar vice em presidente? O PMDB que nunca esteve fora do poder em momento algum dessa simbólica, frágil e infantil democracia? Um partido que tem como expoentes Cunha, Jucá, Renan e Temer? Era nisso que se acreditava?

Quem foi às ruas fez o papel esperado pelos reais interessados nisso. Deu aparência de legitimidade a intenções ilegítimas. Governo ruim não justifica impedimento. Governo ruim é, inclusive, didático. Ensina a votar. Mas em "governo ruim", devemos, talvez, separar a péssima equipe de Dilma da ingovernabilidade que Cunha enfiou o país, acelerando a crise política. Pautas, como a proposta de Dilma contra a corrupção, sequer foram discutidas na Câmara. Havia forte empenho de que ela não governasse, ainda que continuasse no cargo. O "governo ruim" e as práticas criminosas do PT deram ao "povo" o desejo de tirá-la. Mas não foi em atenção a esse pedido que retiraram. Temer, pessoalmente, fez pior do que Dilma e se mantém no poder, apoiado por quem gritava contra a corrupção. Ou seja, não foi o grito de quem foi passear na orla ou fazer danças. Foi o desejo de um grupo em particular. O grupo para quem Temer prometeu governar.

Golpe. E dizer que não foi golpe por seguir trâmites legais, é prova cabal de inocência. Pois má fé está presente no uso das formalidades para realizar a vontade ilegítima. Um golpe dentro das regras é legal, mas anti-ético. Apoiar isso não é atitude democrática. Democracia é sujeição à vontade da maioria e tornar, essa vontade, a que você vai defender que se cumpra. Mesmo que contrária à sua. Índice de rejeição não justifica, também  um impedimento. E Temer está aí pra mostrar isso, já que é mais rejeitado do que Dilma. Impedimento é justificável por crime de responsabilidade. E só. Portanto  aliar-se a isso, porque seu voto foi vencido, é matar a democracia e instaurar a aristocracia. Desejo presente naqueles que queriam a separação do nordeste ou voto de peso maior para quem tem "estudo". Entretanto, desejar algo ilegal é compreensível, em uma abordagem não hipócrita. Mas deve ficar apenas no desejo. O Brasil pretendia ser uma democracia e por ela deveríamos lutar.

Sobre Lula, a observação há de notar muita coisa estranha no processo. Mas é preciso que se abra a mente e se perceba realidades tristes e que pouco temos força para mudar; como, também, notar que "nem tudo que reluz é ouro". 

Doa a quem doer, há uma realidade mais do que certa: inúmeros partidos não querem Lula como candidato. Não se pode perder de vista a luta pelo poder: Lula quer se tornar o primeiro a presidir a nação três (ou quatro) vezes; e os aliados ao PSDB não querem isso. Há  ego dos dois lados. Essa realidade é facilmente notável se você ficou feliz com a condenação dele porque Lula se tornará inelegível. Não faria diferença, para muitos, se ele fosse condenando ou não, contanto que houvesse garantia de que seu retorno não ocorresse. Se há esse sentimento em você, sua busca por justiça morreu. O que há é sua vontade política. Que, para sua realização, você não se importa com os valores do estado democrático de direito. Porque, afinal, você é um aristocrata.

Outra realidade que sabemos, mas ignoramos e, no caso do Lula muitos resolveram notar, é que ninguém chega à presidência do Brasil ajudando na travessia de idosos nas ruas. Também não existe um anjo enviado do céu com poderes de nomear esse ou aquele. Nosso sistema político e a moral desviante do brasileiro apelam para um aliança entre Deus e o diabo. Não se quer com isso justificar crimes. Pelo contrário! Quer se denunciar a parcialidade com que lidamos com os crimes: Cunha foi considerado herói, o "malvado favorito"; Temer brinca com o poder para não ser cassado. Com manobras realmente tenebrosas; Aécio é o eterno injustiçado; os áudios com a fala do Jucá não mobilizam sequer um protesto. Não há preocupação pela justiça, com a prisão do Lula. Há uma aristocracia implantada. Há procuradores querendo seus nomes na história. Há ego e nada mais que isso. Lula tem a maioria das intenções de voto. Isso, ao mesmo tempo, diz que a maioria não acredita, não foi convencida, ou não se importa se o sítio ou o triplex são dele. O povo o elegendo, diz: não o prendam!

A justiça, todavia, se baseia na lei, na jurisprudência e nos costumes. Portanto, se provada sua culpa, ele deve ser preso.  O que não se pode é escolher o criminoso e depois procurar o crime. É fato que se essa atitude ocorrer contra qualquer líder do executivo  (de municipal a federal), se encontrarão indícios. E em alguns casos, provas. Pois a política no Brasil se faz assim. Escolher o criminoso e depois o crime é errado! Lula ter que provar sua inocência é errado! O ônus da prova é do acusador. Ao réu cabe  a presunção da inocência. Lula em momento algum foi tratado como inocente e, a todo momento, se cobra que ele prove sua inocência. Notícia de jornal foi apresentada como prova! Se é inocente? Não creio! Mas minha crença não gera provas.  

Daí se percebem dois fatos interessantes: Juiz não deve lutar contra a corrupção. Juiz é passivo. Deve ser provocado para julgar. Não deve se comportar como amigo, parceiro de trabalho ou membro do Ministério Público. Juiz não deve crer no que dizem. Nem a confissão do réu é considerada como prova cabal. O juiz deve se preocupar com a verdade dos fatos. Não a encontrando, no fim do processo, deve presumir a inocência do réu. Da mesma forma o MP. Sua busca não é a condenação. Mas a verdade. Os indícios servem para se iniciar um processo. Se o próprio MP não conseguir encontrar a verdade, deve abrir mão do processo. Leia, faça esse esforço, a posição do MP e a dos advogados. Por fim, leia a condenação. E seja franco sobre se a verdade foi realmente esclarecida. Dificilmente dirá que sim.

A Democracia é dolorida mesmo. É necessário maturidade psicológica para se render à vontade contrária à sua. Mas é isso que a Lei faz conosco. Nos permitindo fazer tudo o que ela não proíbe e controlando as ações da administração pública. Obrigando-os a atuar somente onde ela permite. Mas essa maturidade não está presente na grande maioria das pessoas, não importa sua classe social ou seus estudos. O poder corrompe? De fato... Mas só corrompe quem é corruptível. Quem não é assim, entende que o poder é o "poder servir". Compreende que o governante não fala, age ou trabalha para si. Ele não é patrão do povo. É seu empregado. Mas é impossível que essa realidade esteja presente em um país onde os protetores da Constituição, os juízes, os legisladores e os líderes do executivo  fazem parte de uma casta com privilégios que aproximam sua realidade da de nobres da idade média. 

Dessa forma, devo concluir que não há democracia. Há aristocracia! E enquanto formos repetidores de discursos e colocarmos nossa vontade acima da decisão da maioria, continuaremos nesse regime. Hoje ele pode ser bom para você, já que sua vontade prevaleceu. Mas entenda, ninguém olhou sua vontade. Foi apenas coincidência suficiente para que a legitimidade tenha aparência de existência. Há vontades que estão além das suas. E essas "tenebrosas transações" ganham seu apoio inconsciente enquanto a democracia morre antes mesmo de chegar à juventude.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Éden, a Evolução do Homem


A história do Jardim do Éden, por conta de sua natureza simbólica, recebeu e receberá diversas interpretações. Uma tradição mais positiva observa, na "desobediência" de Adão e Eva, o melhor que poderiam fazer. Nota, no próprio texto, que a expulsão do "paraíso" se deu mais por uma elevação do que por uma queda do ser humano:

"Então disse o Senhor Deus: Eis que o homem se tem tornado como um de nós, conhecendo o bem e o mal. Ora, não suceda que estenda a sua mão, e tome também da árvore da vida, e coma e viva eternamente. O Senhor Deus, pois, o lançou fora do jardim do Éden para lavrar a terra, de que fora tomado" - Gn 3.22-23

Nessa visão, a serpente não mentiu:

"Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que comerdes desse fruto, vossos olhos se abrirão, e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal" Gn 3.4-5
O que ocorreu no Éden se assemelha ao mito grego do titã Prometeu, que roubou o fogo dos deuses e deu aos homens. Aquilo que pertencia somente aos deuses, passou a ser, também, dos homens. Os deuses Castigaram Prometeu, mas o fogo continuou com os homens, ainda assim. No caso do Éden, o conhecimento do bem e do mal foi dado ao ser humano pelo próprio ser humano. Não tomando de Deus. Não diminuindo a Deus, mas elevando a humanidade a ser "como Deus".

As histórias seguintes continuam fazendo oposição entre Deus e o humano. Elas são de momentos e locais diferentes. Mas são harmonizadolas pela tradição:  a Arca de Noé  e a Torre de Babel.

A primeira relembra o cativeiro Babilônico e na segunda, os que não foram  deportados observam o tamanho do império Babilônico, que chega "até aos céus". Mas que é grande apenas aos olhos humanos. Pois, ironicamente, Deus precisa descer para ver do que se trata.

Por fim, esse Deus dá ao povo a Torah. O ensinamento de Deus sobre o bem e o mal, a morte e a vida. Deus dá o fruto da árvore. Numa atitude de selar a paz entre os opostos, Deus toma a iniciativa. Nesse sentido, é Deus que aprende que, de opositor, o homem, conhecendo o bem e o mal, pode se tornar parceiro. Co-criador com Ele.

Diversas culturas surgiram. Em muitas delas, os reis são deuses ou filhos de deuses; os sacerdotes são "pontes" entre um  deus rigoroso e raivoso; e o restante da humanidade perdida e pecadora.

Essas imagens que depreciam alguns se mantém ainda hoje. Uma delas, por exemplo, elevou o espírito e diminuiu o valor do corpo. Fez um dualismo entre carne e espírito. Ser "carnal" é ser fraco. Ser espiritual é ser elevado. A despeito delas, o cristianismo primitivo ousou dizer:

"No princípio era o Logos, e o Logos estava com Deus, e o Logos era Deus. E o Logos se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai" - João 1.1,14

Na sua tentativa de "fazer as pazes", os cristãos afirmaram que Deus é carne e é humano. Ou, para uma fidelidade ao termo, o Conhecimento (Logos) se fez carne. Deus se humaniza. O conhecimento de Deus se humaniza e se torna "palpável" (1 João 1.1).
Deus é humano. E, por isso, castigado pelo próprio castigo imposto aos rebeldes Eva e Adão. Se, no Éden, o homem se tornou semelhante a Deus, em Cristo, Deus se tornou semelhante ao homem. Se lá houve uma evolução humana, aqui há um "esvaziamento" de Deus. Como lá houve um castigo por tal ousadia, aqui, no mundo dos homens, Deus recebeu seu castigo: morto numa cruz, como um criminoso; alguém que desobedeceu a autoridade que governava esse "Jardim"; que roubou o conhecimento libertador e deu aos seus seguidores. Tornando-os, como diziam do imperador, filhos de Deus.

Nessa história longa, que ainda hoje se escreve, Deus e a humanidade estão entrelaçados. É por isso que o que tem fome, está nu, preso ou doente, pode ser identificado com o Cristo. E E. Wiesel pode responder para si a pergunta da fé justificadamente abalada:


"A SS enforcou a dois homens judeus e a um jovem diante de todos os internos no campo. Os homens morreram rapidamente, a agonia do jovem durou meia hora. ‘Onde está Deus? Onde está?’, perguntou um atrás de mim. Quando depois de longo tempo o jovem continuava sofrendo, enforcado no laço, ouvi outra vez o homem dizer: ‘Onde está Deus agora?’. E em mim mesmo escutei a resposta: Onde está? Aqui... Está ali enforcado no madeiro”.

O Éden não é saudade de um passado. E nem lamento de uma queda. É o início da linda aventura human e divina. Um paraíso pode ser um objetivo realizável agora. Já que Deus e humanidade não são mais opostos e, juntos, podemos comer tanto da árvore do conhecimento, quanto da árvore da vida.